Nas
bordas da suave Provence, região administrativa da Provence-Alpes-Côte D’azur, terminam
os campos de lavanda e começam a soprar com mais vigor os ventos do
Mediterrâneo. Foi assim que me deparei com Marseille (ou Marselha).
Foi
como sair de um cenário de pedras ajustadas e campos floridos, com cara eterna
de domingo, e adentrar em outra paisagem. Como sair de um portal mágico para
alcançar outra realidade, também incrível. Como ver o rumo da viagem fazer a
curva e se tornar uma nova viagem.
Povoada
pelos gregos no século VII a.C e tendo passado pelo domínio dos romanos cerca de
49 a.C, foi tomada pelos francos após o Século V, depois do colapso do Império
Romano. É a cidade mais velha da França e a segunda mais populosa, depois de
Paris. Dona de um clima tão antigo quanto a sua história, somado ao mar azul
turquesa que a contorna, Marseille é única. A arquitetura de casas enfileiradas
forma um corredor quase simétrico de tons pastéis, que se afunila conforme tomamos
distância, antes de dobrarmos qualquer uma de suas esquinas.
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Ruas estreitas de Marseille |
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Afunilando a paisagem |
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Marseille e seus tons pasteís |
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Marseille |
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Marseille e seu centro velho |
A
cidade, por si só, não causa tanto impacto. Há de se procurar a sua beleza em
seus detalhes. Mas em um minuto a nuvem se dissipa e você a encontra, tão logo
avista o mar. Sim, o mar é que dá o tom. E o contraste se torna harmonia. Sendo
assustadoramente antiga e grande, a cidade causa estranheza para quem acabou de
sair dos campos de lavanda. Mas seus atrativos somados dão um belo dia ensolarado. Ou uma noite diferente.
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Marseille - a cidade velha |
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Alinhamento |
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Marseille à noite |
O
Vieux-Port e sua margem recontam com suas imagens a história que não conhecemos
profundamente. A cidadela datada de sua fundação estende-se em suas cercanias.
Ali se concentram grandes monumentos, como o Forte Saint-Nicolas, o Forte
Saint-Jean e o Palácio do Pharo. É possível gastar um bom tempo em seus
restaurantes animados, além da possibilidade dos passeios de barco.
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Vieux-Port |
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Porto antigo |
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Porto de Marseille |
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Barcos enfileirados no Porto de Marseille |
Barcos
partindo e chegando não deixam rastros no mar do que já ficou indelével em sua
história. Importante rota de comércio, Marseille também foi foco da peste negra
em 1348 por sua condição de porto, e mais da metade de sua população foi
dizimada. Foi também o principal porto militar do Mediterrâneo, tendo sido
bombardeada durante a II Guerra. O movimento de turistas em seu entorno é
intenso, mas não tira o seu charme.
O
cenário é tão bonito que parece clichê. Mas não é. Não em Marseille. O contato
súbito com o Mediterrâneo causa impacto, principalmente diante da imponência do
War Memorial, monumento com uma fenda que nos faz parecer estarmos sendo
recebidos diante de toda a grandeza do Mediterrâneo que se agiganta à nossa
frente.
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Portas abertas ao Mediterrâneo |
A
vista do Chateau D’If pairando no azul que se estende vale a visita. Quem já
leu Alexandre Dumas deve conhecer a história de “O Conde de Monte Cristo”.
Particularmente, causou grande fascínio em minha adolescência. O castelo é o
cenário onde os heróis do romance vivem suas tramas. Mas sua fama é anterior e
vem desde o Rei François I, que ordenou a fortificação da cidade, em 1524.
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Chateau D'If |
Marseille dá muito valor à história, levando-se em conta sua riqueza cultural disposta em muitos museus, como o Palácio Longchamp, que não tive tempo de visitar. Foquei minha visita à sua condição de entreposto comercial de antigamente.
Extrapolando
as belezas de sua nada generosa natureza, Marseille tem o seu lado antigo muito
aflorado em seu velho eixo. Grande e confusa para dirigir, com ruas muito
estreitas, na cidade velha ficam os monumentos mais antigos, próximos também do
Vieux-Port. Assim como o Mercado de Peixes, que também se concentra nos
arredores. Acabamos deixando o carro no Hotel e cedemos ao trenzinho turístico,
que tomamos no porto, para nos levar até a Basílica Notre-Dame de La Garde,
símbolo da cidade e situada em uma colina.
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Caminhos em seu entorno |
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Escadarias da Basílica |
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Basílica |
A
basílica atual, em estilo romano bizantino, foi concluída em 1864. Mas é de sua
esplanada que a visita a Marseille ganha as devidas proporções. O visual é tão
bonito e intensamente azul, que a identidade com a velha Marseille nos faz
mergulhar em sua essência complexa. Do alto de seus despenhadeiros, revela-se
uma cidade não imaginada.
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Do alto da Basílica - vista impactante |
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Vista do Velho Porto |
Tudo
o que fizemos depois disso foi descer a colina, passear pelas suas ruas sem um
compromisso certeiro, molhar os pés em suas águas frias, essas coisas de
transeuntes e passageiros, turistas de um verão qualquer...
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Plage des Catalans |
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Mediterrâneo |
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Nas bordas do Mediterrâneo |
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Dia de sol |
Sua
intensa relação com o mar e sua rotina de povos chegando e partindo, coroa-nos
como meros espectadores. Sem fazer volume e com nenhuma relação com seu legado,
ficamos ao acaso, sem rastros. Em via sem retorno, Marseille me marcou
profundamente, como o lugar em que os ventos da Provence ganharam uma cor que
não previ além da púrpura. E sopram até hoje em cores no pensamento, marcando o
meu batismo naquelas águas Mediterrâneas.
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